quarta-feira, 25 de abril de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
Conhecer ANTONIO TABUCCHI
Antero chegou como o último de nove filhos a uma grande família dos Açores que possuía pastagens e laranjais, e a sua infância conheceu o austero e frugal bem-estar dos proprietários ilhéus. Teve entre os seus antepassados um astrónomo e um místico cujos retratos, juntamente com os do avô, estavam pendurados nas paredes de uma sala de estar escura que cheirava a cânfora. O seu avô chamava-se André da Ponte Quental e tinha conhecido o exílio e o cárcere por ter participado na primeira revolução liberal de 1820. Isto contava-lhe o pai, um homem simpático que gostava de cavalos e que tinha combatido na batalha batido na batalha do Mindelo do Mindelo contra os absolutistas.
Os seus primeiros anos tiveram como companhia os potrozinhos malhados e as cantilenas arcaicas de criadas que vinham dos montes de S. Miguel, onde as aldeias são de lava e têm nomes como Caldeiras e Pico de Ferro. Era uma criança calma e pálida, de cabelos arruivados e de olhos tão claros que por vezes pareciam transparentes. Passava as manhãs no pátio de uma grande casa de uma grande casa onde as mulheres guardavam as chaves dos armários e as janelas tinham cortinas de renda grossa. Ele corria e dava pequenos gritos alegres, e era feliz. Gostava muito do seu irmão mais velho, a quem uma silenciosa loucura ofuscava durante longos períodos uma inteligência rara e bizarra; com ele inventou um jogo a que chamavam O Céu e a Terra em que as peças eram seixos e conchas, e que jogavam numa espécie de tabuleiro de xadrez circular desenhado na poeira.
Quando o menino chegou à idade de estudar, o pai chamou o poeta António Feliciano de Castilho e confiou-lhe a sua instrução. Castilho era considerado então um grande poeta, talvez por causa das suas traduções de Ovídio e de Goethe, e talvez também pela sua cegueira desventurada que, por vezes, dava aos seus versos um tom de vate muito amado pelos românticos. Na realidade era um erudito irascível e austero que privilegiava a retórica e a gramática. Com ele o pequeno Antero aprendeu latim, alemão e métrica. E com estes estudos chegou à adolescência.
Uma noite de Verão em que completara o seu décimo quinto aniversário, Antero acordou de sobressalto e sentiu que uma força o impelia a ir até ao mar. Era uma noite calma e a lua estava em quarto crescente. Toda a casa dormia e o vento enfunava as cortinas de renda. Vestiu-se em silêncio e desceu até aos rochedos. Sentou-se num penedo e olhou para o céu tentando adivinhar o que o poderia ter levado até àquele lugar. O mar estava calmo e respirava como se dormisse, e a noite era igual a todas as outras noites. Só que ele sentia uma grande inquietação, como que uma ansiedade que lhe apertava o coração. Naquele momento ouviu um bramido surdo que vinha da terra, a lua fez-se de sangue e o mar inchou como um ventre enorme e bateu contra as rochas. A terra tremeu e as árvores vergaram-se com a força de um vento impetuoso. Atónito, Antero correu para casa e encontrou a família reunida no pátio; mas o perigo tinha passado e nas mulheres o pudor das vestes nocturnas já era superior ao susto que tinham apanhado. Antes de voltar para a cama, Antero pegou num bocado de papel e escreveu à pressa, sem conseguir controlar-se, algumas palavras. E enquanto escrevia deu-se conta de que as palavras se iam ordenando na folha quase sozinhas, segundo a combinação métrica do soneto: e ele dedicou-o, em latim, ao deus ignoto que lho estava a inspirar. Nessa noite dormiu serenamente e de madrugada sonhou com um pequeno macaco de focinho irónico e triste que lhe estendia um bilhete. Ele lia-o e percebia um segredo que não era permitido a ninguém saber e que só o animal conhecia.
Estava a ficar um homem. Estudava astronomia e geometria, deixou-se seduzir pela hipótese cosmogónica de Laplace, pela ideia da unidade das forças físicas e pela concepção matemática do Espaço. À noite escrevia os seus pequenos mecanismos misteriosos e abstractos, nos quais traduzia em palavras a sua ideia da máquina cósmica. Já se resignara ao sonho do pequeno macaco de focinho irónico e triste e quase ficava admirado nas noites em que ele o não visitava.
Quando chegou à idade dos estudos universitários partiu para Coimbra, como exigia a tradição familiar, e anunciou que tinha chegado o momento de abandonar o estudo das leis cósmicas e de se dedicar às dos homens. Tornara-se um jovem alto e robusto, com uma barba loura que lhe dava um aspecto majestoso, quase altivo. Em Coimbra conheceu o amor, leu Michelet e Proudhon e, em vez das leis que aplicavam a justiça de então, entusiasmou-se com a ideia de uma justiça nova que falava da igualdade e da dignidade dos homens. Seguiu esta ideia com a paixão que lhe vinha dos seus antepassados ilhéus, e também com a razão do homem que era, porque estava convencido de que a justiça e a igualdade participavam da geometria do mundo. Na forma fechada e perfeita do soneto escreveu o ardor que o dominava e a sua ânsia de verdade, partiu para Paris e fez-se tipógrafo, como outro qualquer poderia ir para monge, porque queria conhecer a fadiga do corpo e a realidade concreta das ferramentas. Depois da França, partiu para Inglaterra e para os Estados Unidos, viveu em Nova Iorque e Halifax, para conhecer as novas metrópoles que o homem estava a construir e os vários modos de viver nelas. Quando regressou a Portugal tinha-se tornado socialista. Fundou a associação nacional dos trabalhadores, viajou e fez prosélitos, viveu com os camponeses, passou pelas suas ilhas como um tribuno de discurso ardente, conheceu a arrogância dos poderosos, as adulações dos astuciosos, a cobardia dos servos. Animava-o o desdém, e escreveu sonetos de sarcasmo e de furor. Conheceu também a traição de alguns camaradas e a ambígua alquimia de quem consegue conjugar o interesse comum com o seu próprio interesse.
Loja de Benjamin Ferin, onde comprou a armaCompreendeu que tinha de deixar a outros, mais hábeis do que ele, a tarefa de prosseguir a obra que ele iniciara, quase como se ela já não lhe pertencesse. O momento era de homens práticos, e ele não o era: e isso deu-lhe um sentimento de desolação, como uma criança que perde a inocência e descobre improvisamente a vulgaridade do mundo. Não tinha ainda cinquenta anos e o seu rosto estava muito marcado. Os olhos tinham-se-lhe encovado e a barba estava a embranquecer. Começou a sofrer de insónias e a dar gritos sufocados nos raros momentos de repouso. Às vezes sentia que as suas palavras não lhe pertenciam e frequentemente surpreendia-se a falar sozinho como se fosse um outro que falasse com ele. Um médico de Paris diagnosticou-lhe histeria e prescreveu-lhe um tratamento eléctrico. Antero anotou que sofria de infinito e talvez fosse uma doença mais plausível para ele. Talvez estivesse apenas cansado da forma transitória e imperfeita do ideal e da paixão, e a sua ansiedade encaminhava-se já para uma outra forma geométrica. Nos seus escritos começou a aparecer a palavra Nada, que lhe parecia a forma mais perfeita de perfeição. Ia já a entrar no seu quadragésimo nono e regressou à sua ilha.

Na manhã do dia 11 de Setembro de 1891, saiu da sua casa de Ponta Delgada, desceu a pé a íngreme rua cheia de sombra até à Igreja Matriz e entrou numa pequena espingardaria da esquina. Vestia um fato preto e sobre a camisa branca levava uma gravata segurada com um alfinete com uma concha. O proprietário era um homem amável e gordo que gostava de cães e de gravuras antigas. Havia um ventilador de latão que girava lentamente no tecto. O proprietário mostrou ao cliente uma bela gravura seiscentista, comprada recentemente, que representava uma matilha de cães perseguindo um veado. O velho lojista tinha sido amigo de seu pai, e Antero lembrou-lhe que, em menino, os dois homens o levavam com eles à feira de Caloura, onde havia os cavalos mais belos de S. Miguel. Ficaram longamente a falar de cães e de cavalos, depois Antero comprou um pequeno revólver. Quando saiu da loja o campanário da Matriz estava a bater as onze. Ele percorreu lentamente toda a beira-mar até à capitania do porto e deteve-se longamente no cais a olhar para os veleiros. Depois atravessou a zona ribeirinha e entrou na praça da Esperança, rodeada de magros plátanos. O sol era feroz e tudo estava branco. A praça estava deserta àquela hora por causa do enorme calor. Um burro triste, preso à argola de uma parede, deixava pender a cabeça. Enquanto atravessava a praça, Antero ouviu uma música. Parou e voltou-se. Na esquina oposta, à sombra de um plátano, estava um vagabundo a tocar um realejo. O vagabundo fez-lhe sinal e Antero dirigiu-se para ele. Era um cigano magro e tinha um macaco ao ombro. Era um pequeno ser de focinho irónico e triste e vestia uma farda vermelha com botões dourados. Antero reconheceu o macaco do seu sonho e compreendeu quem era. O animal estendeu-lhe a minúscula mão negra e Antero deixou cair nela uma moeda. Em troca o animal tirou à sorte um papelinho colorido entre os muitos que o cigano tinha enfiados no chapéu e deu-lho. Antero pegou nele e leu-o. Atravessou a praça e sentou-se num banco junto do fresco muro do convento da Esperança, onde havia uma âncora azul pintada na parede. Tirou o revólver do bolso, levou-o à boca e puxou o gatilho. Teve um momento de espanto ao continuar a ver a praça, as árvores, o cintilar do mar e o cigano que tocava o realejo. Sentiu um frio morno que lhe escorria pelo pescoço. Accionou o mecanismo do revólver e fez fogo pela segunda vez. Então o cigano desapareceu e os sinos da Matriz começaram a bater o meio-dia.
António Tabucchi [Pisa, 23.Setembro.1943-Lisboa, 25.Março.2012]
sábado, 19 de novembro de 2011
O Dr. Bruno

Desta vez fora convidado o Dr. Bruno, grande especialista de olhos em Lisboa. E em jantares, piqueniques, passeios de automóvel e a cavalo, bailes e caçadas, duas semanas voavam…
[…]
Já na casa dos quarenta, tinha ainda um ar jovem, cuidadosamente cultivado. Era uma destas naturezas ricas e pobres ao mesmo tempo, movidas por altas ambições que nunca realizam. Almas que põem tanta avidez no que desejam, tanta inquietação no que procuram, que tudo lhes foge das mãos no momento crucial. Se pudesse ser contada por miúdos, a sua vida daria uma crónica dolorosa de frustrações. Contudo, nenhuma outra mais rica de tenacidade, inteligência e audácia. Num faro quase infalível, antevia a hora e o lugar dos sucessos. E apresentava-se, numa disponibilidade que o tornava credor do maior quinhão do bolo. E, quando o êxito parecia certo, conseguido, a sofreguidão do salto afugentava a presa.
Desta vez viera também guiado por esse instinto adivinho. Tivera, casualmente, conhecimento da existência na família de uma figura complicada de mulher [Catarina], nova, solteira, bonita e poetisa. A princípio não tomara a sério o último predicado da moça.
[…]
Mas depois o Dr. Bruno leu o nome dela num jornal literário, ouviu rasgados e autorizados elogios à sua arte, e, então, a ironia transformou-se em curiosidade, e a curiosidade em desejo de possuir. Bonita e rica significava muito, mas não era o bastante para a sua angústia de perseguidor de miragens. Precisava de um elemento mais, esse com autenticidade de dom. E se realmente se tratava de uma pessoa excepcional, artista ainda por cima, por que não fazer um esforço?
Infelizmente, a ave rara só chegava no dia seguinte, atrasada como sempre.
[…]
Só quando o nome de Guiomar surgiu entre duas saraivadas de adjectivos – de um lado os homens a gabarem-lhe a elegância e a simpatia, do outro as mulheres a chamarem-lhe embirrenta e pretensiosa -, se mostrou interessado.
[…]
Atirava as perguntas com ar negligente, num tom despreocupado, como que por desfastio. A simples notícia de que tinha a dois passos de si uma rapariga de quem se falava com tal discrepância, além de lhe espicaçar os brios de conquistador, fizera nascer no seu espírito, impenitente empreendedor de aventuras, mas experimentada vítima de sucessivos fracassos, o desejo de a conhecer, de a ter de reserva contra Catarina, de preparar uma espécie de porta de traição. Escusava, contudo, de mostrar o jogo.
[…]
O Dr. Bruno, porém, necessitava de entrar naquela vida por alguma porta. Catarina começava a enervá-lo, a criar-lhe um estado de inibição que o irritava. Pela primeira vez encontrava uma natureza que se lhe opunha de antemão, só a existir, numa espécie de antítese humana. E tentava rasgar uma fenda na muralha.
[…]
- Sou por temperamento e formação um homem objectivo… - Acredito pouco numa arte subjectiva.
- Toda a arte o é…
- Interessa-lhe, exactamente porque só entra em linha de conta com o seu egoísmo de criatura privilegiada, o que é lamentável.
Não punha sombra de sinceridade no que dizia. Era uma construção de momento, para enredar a corça esquiva. Em circunstâncias diferentes poderia defender o contrário com a mesma desenvoltura. Tanto se lhe dava dos poemas de Catarina como da cabeleira do dono da casa. Queria, sim, a mulher rendida a seus pés. Quando valorizava nela a condição de criadora, vislumbrava apenas a própria vaidade enfeitada com mais algumas penas. A beleza pura não lhe tocava a alma.
- Talvez tenha razão. Mas, que quer?
- Que acorde, ora essa!
O fio da meada, por mais que se esforçasse, fugia-lhe das mãos nervosas. Encontrava-se pela primeira vez diante de uma irredutibilidade. O adversário não argumentava, mal se defendia e, contudo, cada vez se lhe avantajava mais, como um fantasma que tirasse a força do próprio absurdo mágico do existir. As palavras que lhe dirigia pareciam bater de encontro a uma porta fingida. Por detrás, não havia ressonância.
[…]
…tentou recuperar a calma perdida, o domínio de si. O caminho não era aquele, evidentemente, abrupto, áspero e raivoso. A razão estava farta de o saber. Mas descobrir o outro, o verdadeiro?
Lá no íntimo, uma voz que não queria ouvir segredava-lhe desde a primeira hora que não conquistaria a rapariga.
[…]
E uma indignação impotente, paralela a um estranho sentimento de solidão irremediável, ameaçava submergir o hóspede. Não conseguia sintonizar-se com Catarina. Pelo contrário: cada vez a sentia mais distante.
[….]
O resto era Guiomar, que lhe aparecia no pensamento como uma possível tábua de salvação no jogo sentimental que iniciara. O coração nunca lhe pedira afectos verdadeiros. À sombra deles procurava apenas realizar não sabia ao certo que recôndita aspiração. Desde criança que lutava por esse impossível sem nome na sua própria consciência, e que se resumia numa imperiosa necessidade de afirmação e domínio. Se triunfasse algum dia, é possível que ficasse sem saber como utilizar a conquista. Enfadado e desiludido, acabaria por deixar cair, de qualquer modo, o troféu que com tanta veemência desejara. Mas falhara sistematicamente, e só não desanimava porque depois de cada fracasso, logo nova empresa o solicitava, criada pela sua ambição constante e versátil. E aí partia ele insofrido em busca dessa quimera, com toda a persistência passada. Fino observador, vira num relance, à chegada de Catarina, que ali o combate seria duro. Em vão procurava as pontas do invisível vincilho que junta as pessoas afins, que as faz solidárias mesmo quando o não querem ser. A linguagem de cada um dizia coisas opostas. Regiam-se por leis diversas.
[…]
[O orgulho ferido] obrigara-o a permanecer ali atento à melodia que lhe arranhava a alma como um silício. Por mais que fizesse, não conseguia sintonizar-se com o espírito criador que arrebatava os outros. A música em vez de o libertar, humilhava-o.
- É extraordinário, não é? – perguntou Raul a voltar o disco, sem admitir sequer a negativa.
- Sim, de facto. Se bem que eu seja por mundos mais positivos, mais lógicos…
- Não há nada mais lógico do que uma grande obra musical. Um largo de Haendel, por exemplo, é como um templo grego, de rigor e simetria…
- Claro. Claro.
Novamente a grafonola começou a rodar e novamente o maldito Bach encheu a sala da lógica que ele não entendia. Era uma tocata, executada a órgão, pungente e alada.
- Eu, este Bach, francamente! É bom, sem dúvida. Mas confesso…
Os íngremes degraus de uma escada erguida da humildade humana a um céu cristão de bem-aventurança, causavam-lhe tonturas. A transcendência nele, não subia, descia. Reduzia-se a um pragmatismo de utilidade pessoal, a sua, apenas mascarado muito ligeiramente, conforme as circunstâncias. Uma força que o arrastasse sem apelo e o conduzisse, cego, através de mundos onde nada tinha a fazer senão entregar-se, ditoso por já não ser mortal, ou sê-lo purificadamente, acicatava-lhe apenas o instinto de defesa. E fechava-se como um ouriço, hostil a cada nota sedutora. “Conversas com Deus consigo próprio antes da Criação”, chamara Goethe àquela música, isenta de sentimentos mesquinhos ou violentos. E nem mesmo por instantes ele podia renunciar às misérias da sua íntima natureza.
- Não gosta?!
- Gosto. Isto é…
Ia a atacar o génio só com o desplante dos audaciosos, sem poder mais, quando felizmente as mãos de Catarina, piedosas ou enfadadas, fecharam o aparelho.
[…]
Ao almoço, no dia seguinte, renovou a tentativa. Nada! Inábil e precipitado, só conseguira espantar a caça. Nem boa figura fizera. Reconhecia isso. De resto, até um cego via a triste realidade: Catarina fugira-lhe ainda mais. E como não podia viver num clima de derrota, a ideia de Guiomar surgiu-lhe definitivamente, nítida e vingadora, num aberto horizonte de triunfo.
[…]
Os amores do Dr. Bruno e de Guiomar começaram nessa noite. O médico não se comprometeu. Disse e fez apenas o bastante para encandear a rapariga, sem descer do tablado onde representava. Depois do entremez com Catarina – tão absurdamente falhado -, convinha-lhe não actuar ingenuamente, e apresentar a vítima já estrangulada à plateia boquiaberta. Por isso, a táctica consistia no realce de afinidades que ajudassem a papalva a saltar obstáculos embaraçosos, ou então num rosário de atenções que fizessem na sala o efeito de votos positivos numa eleição.
Lisonjeada e rendida a uma superioridade que firmava os alicerces na palavra fluente e no atrevimento intelectual, a coitada, que atravessava uma crise de indecisão, de pousio emocional, escancarou a alma de mulher à magnética impostura do actor.
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Miguel Torga, Vindima
domingo, 25 de abril de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
FIÓDOR DOSTOIÉVSKI
Estavam numa discussão séria, e mesmo apaixonada, sobre um jantar de despedida que queriam dar, já no dia seguinte, ao seu companheiro Zverkov que, por razões da sua carreira de oficial, era obrigado a partir para longe, na província. Também Monsieur Zverkov tinha sido meu companheiro de escola. Eu dedicara-me a detestá-lo sobretudo nas últimas classes. Nas primeiras classes, ele era um ai-jesus de rapazinho, muito vivo e catita, que toda a gente adorava. Há que dizer que eu já o detestava nas classes da primária, exactamente porque ele era um rapazinho muito catita e muito vivo. Os estudos dele sempre foram medíocres, e quanto mais crescíamos mais isso piorava; mesmo assim conseguiu sair da escola bem classificado, porque tinha uma protecção. No correr do último ano de escola ele tinha recebido uma herança, duzentas almas[1] , e como nós éramos pobres, quase todos, ele punha-se com fanfarronices, mesmo à nossa frente. Era um ordinário no mais alto grau, porém simpático, mesmo a fanfarronar. Entre nós, apesar das formas exteriores, fantásticas e oratórias que a honra e o amor-próprio assumiam, toda a gente, com raras excepções, chegava a lamber as botas a esse Zverkov, por mais que ele bazofiasse. Não era por interesse que lhe lambiam as botas, era assim, porque era um homem favorecido pelos dons da natureza. Além de que Zverkov era quase unanimemente visto, entre nós, como um especialista no domínio da graça e das boas maneiras. Este último ponto enraivecia-me particularmente. Eu odiava o tom da sua voz, abrupto, convencido, a adoração que tinha pelas suas próprias saídas que eram todas realmente estúpidas, apesar de não ter papas na língua; odiava a cara dele, bonita e parvinha (mas que eu trocava de boa vontade pela minha inteligente) e todas as suas maneiras desenvoltas de oficial dos anos quarenta. Odiava o que ele contava dos seus futuros êxitos junto das mulheres (não ousava iniciar-se nelas antes de ter os seus galões de oficial – o que esperava com impaciência) e como, a cada instante, iria bater-se em duelo. Lembro-me de como eu, que ficava sempre calado, me peguei com ele quando o ouvi falar com os seus companheiros, nos intervalos das aulas, da “fruta” que iria comer e, aquecendo progressivamente, como um cachorro ao sol, acabou por se sair com essa de que não havia de lhe escapar nenhuma rapariga da sua aldeia, que esse era o seu droit du seigneur, e que aos labregos que ousassem protestar havia de zurzi-los ele mesmo a chicote, do primeiro ao último, e que lhes faria pagar o tributo pelo dobro, a esses grandes pacóvios de barbas. As nossas pestezinhas aplaudiam-no, mas eu atirei-me a ele, não por pena das camponesas e dos pais, mas porque sim, porque eles aplaudiam esse miserável. Eu tinha dado conta dele, mas o Zverkov, por mais idiota que fosse, continuava sempre mordente e alegre, por isso tinha conseguido desenvencilhar-se da situação pela brincadeira, sem pensar nisso, de sorriso nos lábios. Eu, raivosamente, com desprezo, não lhe respondia. Pelo fim do curso, ele tentou aproximar-se de mim; eu não protestei, sentia-me lisonjeado; mas logo nos separámos, naturalmente. Depois ouvi falar dos seus êxitos de tenente da guarda – dizia-se que ele fazia vida de grande farra. Depois chegaram-me aos ouvidos outros zunzuns, sobre promoções na carreira dele. Na rua, Zverkov tinha deixado de me saudar, eu desconfiava que ele teria medo de se comprometer ao trocar cumprimentos com alguém tão desprezível como eu. Outra vez vi-o no teatro, nos terceiros camarotes, ostentando já os cordões. Pavoneava-se e meneava-se todo frente às filhas de um general muito velho. Em três anos tivera tempo de se desleixar, embora continuando sempre tão hábil e tão bonito como dantes; tinha, como direi?, ficado opado, tinha engordado; via-se que quando tivesse trinta anos não passaria de um saco de banha. Era, portanto, a este Zverkov de partida que os nossos companheiros se preparavam para honrar com um jantar. Nesses três anos eles tinham-se, por conseguinte, encontrado sempre com ele, apesar do facto de eles, intimamente, se sentirem seus inferiores – estou convencido disso. Fiódor Dostoiévski, Por Motivo da Neve Húmida,
in Cadernos do Subterrâneo
[1] Uma “alma” é um servo da gleba, do sexo masculino, adstrito a uma aldeia ou a uma propriedade, juntamente com a sua família, e pertença de determinado senhor.
sábado, 25 de abril de 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
domingo, 5 de abril de 2009
Conhecer FERREIRA DE CASTRO
- Acaba lá com isso! Todos têm direito à vida… O Paredes foi despedido porque estava velho e cheio de achaques. Já dera o que tinha a dar. O mesmo aconteceu com o Armando, com o Telhadais, com o Vicente, com todos. Não é preciso empenhos de outros. Já viste algum patrão querer operários velhos? Antigamente, eram postos na rua sem mais aquelas… Agora, o Sindicato dá-lhes vinte escudos por semana. Sempre podem comer quatro dias por mês…
Alguns riram. Horácio não desistira de esvaziar-se de suas razões, mas Pedro, apertando-lhe mais fortemente o braço, pedia-lhe:
- Cale-se! Cale-se!
Do outro lado, alguns operários afastavam-se, levando, com eles, a Tramagal. Então, o homem de cabelo branco, olhos profundos e dois únicos dentes na boca envelhecida, acercou-se de Horácio:
- Não lhe leve a mal. Ele tem aquele feitio refilão, mas não é má pessoa. O melhor é não lhe ligar importância. Mas diga-me uma coisa: como é que diabo você, com essa idade, veio parar aqui?
Os três voltaram a sentar-se. Horácio desabafou. Havia simpatizado com aquele homem desde a sua primeira intervenção – e contou-lhe tudo. O outro ouvia-o em silêncio, sem mesmo acabar de descascar a batata cozida que tinha entre as mãos. Quando Horácio terminou, ele sorriu:
- Está tudo muito bem. É pouco mais ou menos como eu tinha imaginado. Ninguém se sujeitava a isto se não tivesse necessidade. O que me admira é que você, um homem feito, ainda acredite que… - Hesitou e o seu olhar envolveu também a Pedro: - Enfim, vocês são ainda novos e o Mundo há-de dar muitas voltas. Eu logo explico tudo ao Tramagal. E não o tome de ponta, que não vale a pena. Ficamos amigos, não é verdade? Eu chamo-me José Nogueira, mas ninguém me trata assim. Chame-me Marreta.
[…]
Marreta habitava, sozinho, um casinhoto perto da ribeira que ladeava o povoado. Era viúvo e não possuía outra família além de um filho na América, do qual falava sempre com melancolia, queixando-se de que ele deixara de escrever e o esquecera.Vegetariano e esperantista, na defesa daquela forma de sustento e a pregar as vantagens de uma só língua para a Humanidade inteira, Marreta punha tanto fervor como se de credos religiosos se tratasse. Ele próprio cozinhava os seus vegetais e, vida sóbria, despendia a maior parte da féria em brochuras e correspondência com esperantistas estrangeiros, nas semanas em que um ou outro operário não lhe demandava a casa, a tartamudear um pedido de empréstimo. Conhecedores do seu feitio, raros lhe pagavam; e, se algum o fazia, era, quase sempre, para estar apto a pedir, noutra ocasião de aperto, uma quantia maior. Marreta estimava o dinheiro em relação apenas com o preço dos selos do correio. A sua grande volúpia seria poder escrever muitas cartas e receber muitas também dos esperantistas das outras terras. Como houvesse começado a corresponder-se com uns húngaros, tanto se apaixonara pela Hungria que acabara estudando vários aspectos da vida daquele país, mesmo os que não tinham afinidade alguma com o esperanto. E, durante mais de um ano, ao falar, citava a Hungria por tudo e por nada.
Na Aldeia do Carvalho poucos adeptos arrebanhara para a língua internacional e para o vegetarianismo não conquistara um só. Debalde ele jurava que, assim, seria melhor a saúde, mais longa a vida e menor a escravidão do ser humana às necessidades de cada dia. As mulheres, sobretudo, contrariavam-lhe a propaganda. Mais realistas do que os homens, afirmavam, desdenhosas, que fartas de batatas estavam elas desde que haviam nascido e que pena tinham de não poder comer carne todos os dias. Um bife! Uma perna de carneiro assada! Quem lhos dera!
Apesar dessas divergências, a quadrazita que Marreta habitava enchia-se de operários quase todas as noites. Fugindo ao ambiente de suas casas, ao ruído e movimento da filharada, os homens vinham para ali, naquele período do Inverno, jogar a bisca e cavaquear. A ausência de mulheres, de crianças e dos problemas domésticos dava-lhes uma efémera sensação de evasão. Além disso, se as doutrinas vegetarianas não os seduziam e se lhes produzia antecipada preguiça a ideia de estudar esperanto, eram fascinados por outras aspirações que Marreta juntava àquelas, numa catequese que ele exercia há muito tempo já. Muitas vezes Horácio ouvia-o referir-se a um mundo que viria, um dia, um mundo onde não existiriam nem pobres, nem ricos, nem grandes, nem pequenos – e onde todos teriam tudo quanto carecessem para viver sem apoquentações. Sempre a conversa ia para aquele ponto. Se se falava de alguém que fora despedido, de falta de luz nas casas e de lugares no Albergue, de pai que não tinha pão para os filhos, de pessoa que andava esfarrapada ou pedia esmola, sempre se falava desse dia em que tudo isso acabaria e os homens seriam mais felizes. Seriam todos como irmãos, uns não explorariam os outros e não haveria mais guerras.
Horácio admirava-se de que, parecendo Marreta tão inteligente, acreditasse naquilo, quando ele, que sabia muito menos, não podia crer, pois ricos e pobres houvera-os sempre e se alguém fosse tirar aos ricos o que lhes pertencia, logo viriam a guarda republicana e a polícia e poriam tudo como dantes. E mais surpreendido ficava ao verificar que todos os outros, interrompendo o jogo, iam lançando as suas palavras na mesma direcção das de Marreta. Até o Ricardo, sempre tão calado, tão metido consigo, estava, via-se logo, de acordo com aquilo. Alguns dos operários traziam jornais e liam coisas passadas em terras estrangeiras, notícias da guerra, que os outros escutavam em silêncio, enquanto o fulgor do lume lhes enrubescia as caras atentas. Depois, um e outro afirmavam que o dia podia chegar mais depressa do que muitos esperavam.
Durante semanas, Horácio olhava para os frequentadores da casa do Marreta como se eles tivessem um segredo que o seu entendimento não conseguia descobrir completamente. Tudo quanto lhes ouvia o desnorteava. Podia lá ser á ser que as coisas viessem a ser como eles diziam? Mas, então, por que eles acreditavam naquilo, falando, às vezes, por meias palavras, como de um amor que estivesse no fundo dos seus corações e do qual não quisessem dizer tudo?
Algumas noites, no meio das conversas, Marreta referia-se a cartas que recebera de esperantistas de outros países e sempre dava a entender que eles esperavam também aquele dia de que todos, ali, falavam. Eram pessoas de cidades que Horácio raramente ouvira nomear – Charleroi, Praga, Atenas, Buenos Aires – e, porque se tratava de terras longínquas, tudo aquilo lhe parecia fabuloso, sem ligação concreta com a vida que eles viviam ali, na aldeia de rústicos casebres, de gentes pobres e de cabras e ovelhas. Cada noite, porém, ficava mais perplexo entre o que escutava e o que pensava. Quando era pastor, ouvira, algumas vezes, falar de greves, mas sempre aquelas notícias chegavam, a ele e aos outros que viviam entre os rebanhos da serra, como se fossem movimentos de homens que queriam apenas ganhar maior féria.
Marreta tinha muitos livros, quase todos sem capa, descosidos e ensebados, pois emprestava-os frequentemente. Às vezes, aparecia com um novo volume e, durante semanas, cada um dos operários ia-o levando para sua casa, até todos o lerem. Pelos comentários escutados, Horácio acabou compreendendo que muitas daquelas obras eram proibidas. E, então, sentira desejo de as ler também. […]

Horácio encostara-se a um dos prédios da rua e, enquanto esperava que Pedro se afastasse, viu Manuel da Bouça arrastar-se calçada acima, por entre a multidão que vinha do cemitério. Também aquela imagem do velho céptico o molestou. E, então, pôs-se a olhar para os outros homens, vestidos de negro, que passavam na sua frente, caras que lhe eram familiares, operários da Aldeia do Carvalho e da Covilhã, que ele conhecia da hora de saída das fábricas, dos diálogos no Pelourinho, das próprias ruas onde habitavam. À medida que iam passando, ele evocava as ideias, as embrionárias ansiedades que tinha ouvido a cada um deles, desde que deixara o cajado de pastor e viera trabalhar para as fábricas. E cada vez se apagavam mais, nos seus olhos, as imagens de Pedro e de Manuel da Bouça e cada vez ele se sentia mais confortado, mais confortado cada vez, por verificar que quase todos os que passavam na sua frente pensavam como Marreta e como ele próprio pensava agora.
Viu Tramagal, Ricardo e João Ribeiro a descerem a calçada – e juntou-se a eles. Ricardo disse-lhe:
- No sábado à noite, vamos fazer uma reunião, aqui, na Covilhã, em casa do Ildefonso. Precisamos de continuar… Compreendes? Precisamos de continuar… Não faltes!
- Lá irei – respondeu. E voltou a sentir-se menos abandonado do que quando vira, momentos antes, enterrar Marreta e muito menos do que quando, há anos, entrara para a fábrica. Parecia-lhe que uma secreta força, que ele desconhecia quando viera para ali, partia dos outros para ele e dele para os outros – ligando-os a todos e dando-lhes, com novas energias, uma nova esperança.
[…]
Ferreira de Castro, A Lã e a Neve
sexta-feira, 20 de março de 2009
Conhecer MARMELO E SILVA
[…] Bem certo é a ninguém poder atribuir-se integralmente a culpa dos males que lhe acontecem. Dizem que há forças poderosas coordenadoras. Que há automatismos, impulsos anónimos, reflexos. Que o homem é um pobre ser obediente e comandado. Nas malhas de mandarins perversos, sem poder clamar por socorro… Isto, porém, vexa profundamente sobretudo quem decreta as leis, e não traz senão complicações. Com efeito: a cidade, vista do alto, não passa já dum pobre formigueiro em alvoroço. Se em vez de falarmos dos homens, invocássemos as forças que nos comandam, o formigueiro humano naturalmente perderia a “livre vontade” e a “autonomia” – que tanto preza – e ficaria seriamente diminuído. Melhor é portanto ignorar todo esse mundo de comandos invisíveis e sorrirmos parvamente (não é verdade?) quando nos falam deles. Claro: que importa que a Fome leve à revolta? Chamaremos a contas os rebeldes e não a Fome. Não é isto realmente muito mais simples? Considere-se além disso o Tempo como o melhor dos estadistas. Que dificuldades não resolve o Tempo – greves, prisões, sepulturas! De que vitórias não poderia ao fim jactar-se?!E que é a Vida senão o disfarce do que deveria ser? O Vício não raro despoja a Virtude dos seus aspectos mais sagrados e a si próprio com estes se ornamenta.
Assalta a poder o ambicioso, não o sensato. A escola e o templo não são domínio único do sábio, nem do probo. Quem não viu já fanáticos arvorarem em exclusivo seu o imenso Deus?
José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado

José Antunes Marmelo e Silva nasceu a 7 de Maio de 1911 em Paul, Concelho da Covilhã. Estudou no Seminário do Fundão, donde "sai" com 17 anos, por incompatibilidades de Ser e de Pensar com o sistema e a instituição. Frequentou a Universidade de Coimbra mas, devido à publicação de Sedução, teve de concluir a licenciatura (em Filologia Clássica) na Faculdade de Letras de Lisboa onde apresentou uma tese sobre Virgílio – Um sonho de paz bimilenário: a poesia de Virgílio. Colaborou no semanário lisboeta O Diabo, com o pseudónimo Eduardo Moreno, e na revista presença, de Coimbra, cidade em que conviveu com o grupo neo-realista. Prestou serviço militar em Mafra e na Madeira. Fixou residência em Espinho (onde leccionou na Escola Secundária) até à data da sua morte. Foi agraciado, em 1987, com a medalha de ouro da cidade de Espinho. Com o grau de Comendador da Ordem de Mérito, foi condecorado pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares, em 1988.
Parte a 11 de Novembro de 1991. Foi o fim de uma vida que passou por uma adolescência dedicada ao "seminário"; uma juventude consagrada à "licenciatura, ao grego e aos clássicos"; um adulto dedicado ao "amor, amor, amor…" – como ele próprio anotou.
domingo, 1 de março de 2009
Conhecer DANIEL DE SÁ
A cadela ia na frente. Encontros breves pelo caminho, alguns os últimos sabia Deus por quantos anos, talvez os derradeiros na vida.
“Sempre vais amanhã?”
“Isso é que é, até que enfim está chegando o dia, João…”
“Lá, tens tudo quanto precisas, aquilo é que são terras fartas. Se eu fosse novo…”
“Logo que possa, também me vou embora. Aqui não dá nada.”
E ele triste, como se levasse a morte sobre os ombros. Começava a perceber o que lhe disse um dia o furriel enfermeiro – que tinha o costume de acamaradar com os pretos e só tocava as pretas nas suas partes doentes -, ao vê-lo uma noite chorar agarrado a meia garrafa de whisky: “Saudades da família? Hás-de habituar-te. Quando isto tiver passado, verás que não é assim tanto tempo.” Não eram só da família, as saudades. Das suas coisas também, dos bichos, do mar… Tinham-lhe metido na cabeça aquela de que o mar dá saudades, que um homem das ilhas não pode viver sem ele. Era capaz de passar dias e meses sem o olhar com atenção, anos sem comer lapas ou polvo guisado. Mas chegara a sentir falta de tudo isso como se não desejasse mais nada na vida. “Não é só da família, meu furriel. É da ilha também.” Se a sua terra fosse um deserto, seria o mesmo. Havia quem se sentisse por coisas bem diferentes tanto como ele se sentia pelas suas. O furriel sorrira, num jeito de resignação trocista. “Da ilha, João?... A ilha é um bom lugar de saudade. Nem mais nem menos. Vai deitar-te, que amanhã estás melhor.”
A ilha, um bom lugar de saudade?... Mais nada?... E já se sentia longe, tudo era como se não lhe pertencesse, era como se, mal desaparecidas aquelas caras, não as visse havia tempos sem fim, como se, dado um passo, o caminho para trás não fosse seu desde as carreiras da infância.Conseguira finalmente o passaporte, o visto e a passagem que o libertavam da ilha, mas que maldição há sobre ela que, mesmo quando se tem tudo o que se quer, ela nos deixa infelizes?
Parou na taberna do costume. Queria um copo sem fundo para a sua pena sem fim, num dia que sempre imaginara o seu dia de estar feliz. Apetecia-lhe beber até que o pensamento não soubesse de nada, até que os sentidos esmorecessem na última noção do entendimento. Um copo de vinho: como o fel e o vinagre para abrandar as dores dos condenados às grandes mortes.Bebeu com dois amigos que discutiam o preço de onze vacas e cinquenta e seis alqueires de pasto, e lhe invejaram a sorte. Tinham grandes carteiras cheias de notas de mil, mas nada se compara à abundância dos dólares. Suspenderam o negócio – ficaria para depois continuar aquela sessão de exageros -, estava ali o João para dizer-lhes adeus. E um grande adeus, como uma grande chegada, fica melhor com vinho para aquecer as palavras.
- Para pior do que isto não pode ser. Aqui o Mário dava-te as vacas e o pasto que me quer vender pelo teu passaporte. Não davas, Mário?
- E ainda tornava dinheiro, rapaz.
O entusiasmo deles não lhe buliu com a alma. Eram três companheiros, tiveram de ser três as rodadas. Deu-lhe um torpor quase bom no corpo, mas o resto ficou igual. Antes se mudasse o resto, onde lhe estava a tristeza.
Saiu depois de uns abraços apertados, os dos outros dois pegaram-se-lhe ao corpo, pararam-lhe na cintura, hálitos cheirando a vinho, respingos de saliva de quem já tinha lastro abundante lá dentro onde tombaram os três copos da despedida.
Meteu-se à canada, que conhecia desde os tempos dos ninhos e das laranjas, das brigas sem o motivo e das tapadas sangrentas, de outros gostos proibidos e alguns trabalhos penosos. Por ali andaram com ele o Carlos, que foi padre e depois casou, o Pedro, que estudou para professor, um José que emigrou e outro José que era dono de trinta vacas de leite e um tractor, o Luís, o Mariano, o Manuel, todos emigrados também, o Alberto seu companheiro de carteira na quarta classe, que talvez estivesse à espera dele, no aeroporto de Toronto, dali a dois dias.
As voltas que o Mundo dá… Não havia cigana que fosse capaz de atinar com a confusão de tantos destinos diferentes. E eram todos tão iguais: é verdade que o Carlos sempre foi de saber reis e batalhas como ninguém e o Pedro fazia problemas como se já fosse professor, mas, dali do canto para cima, por essa canada a dentro ou empoleirados nas árvores a roubar laranjas verdes, era tudo a mesma louça. Nesse tempo, doía-lhe a alma só de pensar na América e no Canadá. A América tem cheiro diferente, vinha nas caixas de roupa, tão grandes que era preciso desmanchá-las na rua para caberem em casa. Parece que aquela gente apostava em que as caixas que uns mandavam fossem maiores que as dos outros, uns coitados que saíram daqui quase sem jeito para nada e nem o bem faziam bem feito. Mas, se não fosse isso, um homem tinha andado em couro, que o ganho do dia não dava para meia missa. E brigas que havia ao dividir a roupa, se as melhores peças não vinham com o nome de cada um marcado… Bocas de fome… Ir ao armário e nem miolo de pão! A fome chegava sempre antes da hora, a mesa nunca estava posta quando a vontade apertava, uma doençazinha que não fosse de consumir muito era um regalo, dava direito a outro sustento, o ovinho estrelado, o leite com cacau, o queijo de peso, o chazinho com açúcar, ou um caldo de galinha para fraquezas mais teimosas que era coisa mesmo descida do Céu. Nem um lorde…
Haveria muitas terras no Mundo onde as pessoas gostassem de estar doentes?
E agora? É cada pedaço de pão com manteiga deitado fora pelos rapazes, que nem os cães querem saber. E manteiga, isso era dia de festa quando havia alguma! A fartura faz mal, o fastio é uma coisa moderna, nunca vi disso no meu tempo. Não sei como não morreu metade. Se tivessem morrido todos os que passaram fome, não era preciso emigrar…
Um homem é uma desgraça… Isto é lá terra que dê saudades a alguém. Mas dá, eu sei que dá. Não dá mais nada, mas dá saudades. Quando eu me apanhar com uns dólares, volto para trás, arranjo uma casa, compro vacas, e acabou-se. O pior é o futuro dos meus filhos. Eles, quando vão pequeninos para aquelas terras, nunca mais querem saber disto para nada. E um homem lá não tem mão neles, se dá uma bofetada num vem logo a polícia, e ainda estamos sujeitos a malhar com os ossos na cadeia. Só o diabo é que pode sofrer uma coisa destas, mas dizem que é assim mesmo, que é que se pode fazer? Não vou mudar as leis daqueles excomungados, que não passaram fome, não sabem o que custa a vida. É que a fome ensina muita coisa. Havia respeito no meu tempo de rapaz. O pobre respeitava o rico, porque o rico era quem lhe dava trabalho. Os pobres respeitavam-se uns aos outros, porque precisavam de toda a gente. Agora andam de barriga cheia, e a fartura é má conselheira. É isto, naquele tempo não eram melhores do que são hoje, tinham era mais necessidade.
Fome negra, morriam da primeira doença que não fosse a gripe de Abril ou Novembro, porque mesmo que alguém quisesse acudir não tinha com quê, só o Doutor Simas, de Vila Franca, era um santo, que até dava remédios e tudo, mas os ricos e o governo não se importavam com a gente, era tudo pior que os cães. A terra está do mesmo tamanho, mas já se vive melhor, não tem comparação. O dinheiro ia todo para eles, grandes ladrões, que metiam uma pessoa na cadeia por dá cá aquela palha, bastava o regedor dizer que um homem era comunista, mesmo que nunca tivesse ouvido falar nisso, mas era a fama que pregavam em qualquer um a quem quisessem fazer mal, como ao Júlio, que atravessou a rua enfeitada para a procissão, e ao Roberto e ao João Ferreira, que fizeram um barco de canas no Carnaval como se fosse o “Santa Maria” e, um deles, o Henrique Galvão.
É verdade que, se não fosse a emigração, comiam-se uns aos outros que isto era gente que já não cabia aqui. Mas se uma mulher não fizer contas à vida e se um homem deixar metade na taberna, a fome ainda é mais negra. Só para os mais gastadores, bem se sabe, que os outros lá vão vivendo com chicharros, que antes nem sequer havia pão, juro pela felicidade dos meus filhos, que Deus não os castigue com metade do que eu passei.
No Canadá é tudo fartura, do mau e do bom, mas são outros costumes, sei lá como vai ser comigo. Mas talvez acabe por acostumar-me, não sou melhor que os outros. O José Pereira levou alguns dois anos a chorar, e depois criou o gosto por aquela terra que nunca mais se importou com a nossa. Quis vir morrer aqui, quando os médicos o desenganaram, como se o céu fosse mais perto da gente. E é capaz de ser, que se um homem leva esta vida com paciência não há demónio que lhe pegue na alma.
Não deixo para trás nada que me faça falta, a não seres tu, Diana. Vais andar por aí ganindo, esfomeada e tonta, pois tens esse mau feitio de não comer a jeito quando não estou. E eu vou ficar por lá apalermado, com saudades duma cadela, louvado seja Deus! Hei-de escrever cartas a perguntar por ti, minha mãe lê-as para ouvires como se fosses gente, tu tens mais tino do que muitos que andam em cima de dois pés. Se calhar o meu cheiro chega ainda na carta, hás-de farejá-la e ficar doida, à minha procura, minha mãe diz: “Olha, Diana, é do teu dono, é do João”, e tu corres a casa toda, esqueces essa tristeza de rabo murcho e começas a sacudi-lo, vais à porta da rua, talvez ladres a chamar por mim, e voltas para dentro com uns olhos cheios de lágrimas que não se vêem mas que custam tanto como as outras ou mais ainda. Ou sentas-te à porta da minha casa fechada, cismando, a olhar para cima e para baixo, a ganir e a rapar na madeira, vens aqui à terra, entras na taberna a perguntar por mim só porque entras, vais ao pasto, vês as vacas todas mas não me vês a mim, é o Manuel da Emília que há-de estar lá, ficas sem perceber nada, ainda acabas por te finar de tristeza como a cadela do José Sousa, quando o dono morreu.
O resto, Diana, são saudades de fome, de suor, de trabalhar como um negro desde os seis anos, e, vamos lá com Deus, de algum copo de vinho com uns amigos, que só tornam a pensar em mim quando eu vier de visita ou lhes mandar um postal de Boas-Festas com um dolarzinho, para beberem pela minha saúde.
Mas, então, por que raio estou tão triste, com uma tristeza que, se eu soubesse que isto era assim, nunca me tinha posto a passar papéis para emigrar e ainda por cima meu cunhado pensa que lhe fico devendo as gadelhas só porque me fez a carta de chamada? Não é pela nica de terra, um raio a parta. Deus me perdoe, que umas vezes dava muito, para vender a preço de nada, e, outras, mal lhe arrancava umas batatas e uns feijões para as sopas de meio ano. Nem é pelas vacas, que nem sequer são minhas, e me tiraram anos de vida, sempre a correr, quando estavam mais perto vinha como um doido, entre o leite da manhã e o da tarde, atirar uma sachadela à terra, a ver se adiantava serviço, ou ficava lá até não ver nada, era pelo tino, e no fim, sempre pobre, que Deus já não dá vinha e gado a quem tem paciência como Job, mas manda a verdade dizer que eu excomunguei mais vezes o trabalho do que dei graças a Deus pela saúde e pela força que nunca me faltaram. Ah! mas assim não me faltem no Canadá, e estou aqui estou rico, porque os remediados de lá são mais ricos do que os ricos da nossa ilha.
Se eu pudesse levar-te, Diana, não me ficava pena nenhuma do que deixo atrás. Só minha mãe e meu pai, coitados, já se vão pondo velhos, mas esses, mais dias menos dias, de certeza que estão lá caídos. Têm aquele feitio de não querer incomodar os filhos, dizem que vão viver a favor e aqui ainda se terminam, mas não aguentam, vais ver que não aguentam aquela casa vazia, sem a alegria de ninguém, só eles a olhar um para o outro como duas árvores sem ninhos. E um homem quando casa, mete logo na cabeça que os pais já não têm nada com ele, e depressa se esquecem as sopinhas da mamã, que até se for preciso ir para o fim do Mundo vai-se mesmo sem pensar no desgosto deles. A vida é assim, não se pode mudar a vida, ela é que manda na gente.
Olha, Diana, se te passasse um camião por cima, estava tudo resolvido. Desculpa que eu pense nisto, mas é verdade, ia-me custar ver-te morta, mas enterrava-te, ficava acabado, havia de me acostumar à tua falta, porque não se espera nada de quem vai para o outro mundo. Um homem habitua-se sempre ao que não tem remédio. Mas, assim, eu tão longe e a saber-te morrer aos poucos, de desgosto, e não poder valer-te… Ah! maldita terra, Diana! Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela!
E, depois, aquilo lá é tudo tão diferente… Uma língua que para mim é chinês, casas maiores do que o Pico da Vigia, lojas onde dizem que cabe a nossa freguesia inteira, ruas com mais povo do que a cidade pela festa do Santo Cristo, carros que nunca param de passar, um homem não pode andar descansado, ou a conversar num canto, não se vai para lado nenhum, é penar para ver os amigos, que às vezes estão mais longe do que daqui para lá, não há horas certas de trabalho, o marido e a mulher passam a vida sem se ver a jeito, os filhos aos terramotos para a escola, comem à pressa, nem sequer há domingos com vagar para ir à missa ou jogar uma sueca. Um inferno, um inferno cheio de dólares, é o que aquilo é.
Olha-me esta terra! Nunca deu tanto como vai dar este ano, juro. Que linda batata! Quatrocentas arrobas seguras, e o Manuel da Emília ficou-me com ela por duzentas e cinquenta. Mas chega às quatrocentas ou anda lá perto, isso não falha. Ele tira-a daqui a três semanas, foi um belo negócio, mas não faz mal, Nosso Senhor lhe dê sorte de vender tudo por bom preço. E o milho!... Um louvar adeus. Olha-me aquele feijão, vai ter que se lhe diga, nunca tive disto, palavra de honra que nunca tive. Parece que a terra quis despedir-se de mim fazendo-me negaças, uma fartura destas e não vou comer uma batata escoada que seja, não provo um molhinho de feijão nem uma maçaroca de milho cozido…Espera, deixa-me tocar na terra, é a última vez que a vejo minha, se eu voltar, tenho de pedir licença para pôr os pés aqui dentro, apetecia-me pegar nela ao colo, é uma tolice, olha que não é do vinho, estou sério, muito mais sério do que gostava de estar, maldita a hora em que resolvi dar este passo, mau fogo abrase a tantos trabalhos em que um homem se mete só para ter que comer e que vestir. E nunca vi ninguém ser feliz por causa do dinheiro. O que importa é a saúde e a graça de Deus.
Estás para aí pasmada por me ver sachar batata deste tamanho, não é?... Quero é matar já as saudades que vou sentir.
Anda aqui, Diana, chega ao pé de mim, cadela dum raio que és a minha perdição. Dá cá um beijo ao teu dono, dá cá, que, se calhar, nunca mais te vejo. Ah! bicho dum corisco, e eu que não te queria porque eras fêmea, mas ninguém pegou em ti, e não fui capaz de te matar. Ainda abri uma covinha para te meter lá dentro, mas o sacho nunca me pegou tanto como nesse dia. Sabes? sinto remorsos de ter querido matar-te, só tu nunca me enganaste, se Nosso Senhor fez um Céu para os cães, vais direitinha lá parar, minha santa.
Olha, se meu pai for para o Canadá, deixa-te com alguém, mas tu nunca mais prestas para nada. E eu, quando voltar, se ainda te apanhar viva, já nem sequer és minha. Mas tu morres antes, de certeza que morres. Um raio parta a minha cabeça, para que me fui meter nesta aventura do inferno, eu que não tinha outra ideia senão embarcar e, agora, estou para aqui feito tolo, por causa de ti, se não fosses tu, era outra coisa qualquer, um homem nunca está satisfeito, é um bicho triste, que até nasce chorando. Não vês, Diana, a gente aprende a rir mas ninguém nos ensina a chorar, e meu pai, algum dia, ainda é capaz de te pôr a ladrar ao telefone, para eu te sentir no Canadá, e ele se calhar a tocar contrabaixo ao mesmo tempo, que já uma vez tocou também para meu cunhado ouvir e matar saudades.
* * *
João simulou todos os gestos com que ajudara a terra a prometer fartura. Depois sentou-se no chão e chamou a cadela para junto de si. Diana lambeu-lhe as mãos e a cara, ganiu alegremente, e deitou-se ao lado dele com a cabeça apoiada na sua perna direita, olhando-o com piscadelas que pareciam sorrisos. João levantou-se, desviando-lhe a cabeça docemente, e pediu:
- Beija-me, Diana.
Ele baixou-se um pouco, e a cadela esticou-se e lambeu-lhe a cara novamente.
- Tira-me o chapéu, vamos.
Diana saltou duas vezes e, à segunda, ficou com o chapéu entre os dentes. Deu uma volta ao redor de João, que se ajoelhou.
- Põe-me o chapéu na cabeça, sua velhaca.
Obedeceu, divertida e desajeitada no acto de cobrir o dono, que facilitou a tarefa com uma torção do pescoço.
- Dá cá um aperto de mão.
Diana levantou a pata direita para a mão estendida. João sacudiu-a como se fosse um cumprimento a sério.
- Morre, Diana.
A cadela deitou-se, imitando a morte sem saber o que imitava. João pegou no sacho, ergueu-o e apontou-lho à cabeça. A pancada caiu certeira e fulminante. Diana estremeceu por momentos, agitada por uma morte de que não se apercebeu. João tentou aguentar as lágrimas dentro dos olhos, como criança fazendo-se homem, mas acabou por chorar em silêncio. Havia de recordar aquela cena toda a vida, fingindo acreditar que estava bêbedo, e lutaria, em pesadelos de agonia, com um fantasma ensanguentado e imortal que tinha a aparência deformada de Diana. Abriu uma cova o mais fundo que pôde. Bateram as trindades, as últimas que iria ouvir por muito tempo. Descobriu a cabeça e rezou, coisa que nunca fizera ao som dos sinos da tarde. Depois, atirou Diana para dentro da cova e fechou a ilha sobre ela.
Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Conhecer CARLOS DE OLIVEIRA

- Dá-me um salto à olaria do cego. Que venha cá. Que preciso de lhe falar urgentemente.
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Conhecer BRANQUINHO DA FONSECA

Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região.
Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios,além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e uma experiência definitiva. É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso.
Ia fazer uma sindicância à escola primária de V... Foi no Inverno, em Novembro, e tinha chovido muito, o que dera aos montes o ar desolado e triste dessas ocasiões.
As pedras lavadas e soltas pelos caminhos, as barreiras desmoronadas, algumas árvores com os ramos torcidos e secos. Fui de comboio até à cidade mais próxima, onde depois tomei uma camioneta de carreira que me deixou, já de noite, numa aldeia cujo nome não me lembra. Disseram-me que havia uma hospedeira ao fundo da rua. Era uma velha casa em ruínas. Entrei e fui ter à cozinha, uma divisão comprida e escura, ao fundo da qual estava uma fogueira acesa. Ao pé da fogueira, uma velha sentada. Não me sentia à vontade. Estava embaraçado, sem saber o que devia fazer, quando chegou uma senhora a procurar por mim. Era a professora, que, sabendo da minha chegada, vinha esperar-me (...)
Branquinho da Fonseca, O Barão

Branquinho da Fonseca (que usou o pseudónimo de António Madeira) foi poeta, dramaturgo e ficcionista. Natural de Pala (Mortágua), nasceu a 4 de Maio de 1905 e faleceu a 7 de Maio de 1974.
Em 1925, ainda estudante de Direito em Coimbra, participa na fundação da revista literária Tríptico, dirigida por um grupo de jovens poetas como Vitorino Nemésio, Afonso Duarte e António de Sousa.
Da convivência deste grupo e dos seus colaboradores, entre eles José Régio, veio a surgir, em 1927, uma nova revista: Presença. São seus directores José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca. Foi, juntamente com a Orpheu, uma das revistas fundamentais da literatura portuguesa do século XX. Órgão do chamado segundo modernismo, assumindo-se como «folha de arte e crítica», deve-se-lhe um papel fundamental na difusão do grupo do Orpheu, tomando como mestres os escritores do primeiro modernismo português (Pessoa, Sá-Carneiro, Almada Negreiros).
Em 1930, deixa a direcção da Presença para fundar, com Miguel Torga, a revista Sinal, que teve apenas um número publicado.Entre entras actividades e colaborações em revistas literárias, ocupa, em 1943, o lugar de Conservador do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães, em Cascais. Põe, então, em prática a primeira experiência, realizada em Portugal, no domínio das bibliotecas itinerantes. Uma carrinha do Museu vai proporcionar a grande parte da população do concelho, o empréstimo domiciliário de livros. Por esse facto, foi convidado pela Gulbenkian para organizar e dirigir o seu Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, a partir de 1958, tendo sido seu primeiro director até à data da sua morte.
Poesia - Poemas (1926), Mar Coalhado (1932)
Teatro - Posição de Guerra (1928), Teatro I (1939)
Ficção - Zonas (1931), Caminhos Magnéticos (conto,1938), O Barão (novela, 1942), Rio Turvo (conto,1945), Porta de Minerva (romance, 1947), Mar Santo (novela, 1952) e Bandeira Preta (conto, 1956)
Outras: Contos Tradicionais Portugueses e As Grandes Viagens Portuguesas
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Conhecer ALDOUS HUXLEY
UM AVISOos senhores do mundo descobrirão
que o condicionamento infantil
e as narcoipnoses são mais eficazes,
como instrumentos de governo, do que
os garrotes e os calabouços, e que a
avidez de poder pode ser saciada tão
cabalmente se, através da indução, se
conseguir que as pessoas amem a sua
escravidão como se a chicotada e a
pontapés lhes fosse imposta a
obediência. [Aldous Huxley, 1949]
Aldous Huxley****************
[…]
O director pôs o interruptor na primitiva posição. A voz calou-se. Apenas o seu longínquo fantasma continuou a murmurar debaixo dos oitenta travesseiros.
- Ouvirão isto repetido ainda quarenta ou cinquenta vezes antes de acordar; depois novamente na quinta-feira; e igualmente no sábado. Cento e vinte vezes, três vezes por semana, durante trinta meses. […]
- Enfim, a hipnopedia, a maior força moralizadora e socializadora de todos os tempos.
[…]
- Até que o espírito da criança seja essas coisas sugeridas e que a soma dessas coisas sugeridas seja o espírito da criança. E não apenas o espírito da criança, mas igualmente o espírito do adulto, e para toda a vida. O espírito que julga, deseja e decide, constituído por essas coisas sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que nós sugerimos, nós! - Que o Estado sugere.
[…]
- Para governar, é necessário deliberar, e não perseguir. Governa-se com o cérebro, nunca com os punhos. Houve, por exemplo, o regime de consumo obrigatório…
[…]
- Cada homem, cada mulher e cada criança tinha obrigação de consumir uma determinada quantidade por ano. No interesse da indústria. O resultado…
“Mais vale destruir que conservar. Quanto mais se remenda, pior se fica. Quanto mais se remenda…”
[…]
- A objecção de consciência em grande escala. Qualquer coisa servia para não consumir. O regresso à Natureza.
[…]
- O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros.
[…]
- Oitocentos praticantes da vida simples foram abatidos à metralhadora em Golden Green.
[…]
- Depois houve o célebre massacre do Museu Britânico. Dois mil fanáticos da cultura mortos com gases de sulfito de dicloroetilo.
[…]
- Finalmente […], os administradores verificaram a ineficácia da violência. Os métodos mais lentos, mas infinitamente mais seguros, da ectogénese, do condicionamento neo-pavloviano e da hipnopedia…
[…]
- Utilizaram-se enfim as descobertas de Pfitzner e de Kawaguchi. Uma intensa propaganda contra a reprodução vivípara…
[…]
- Acompanhada por uma campanha contra o passado, pelo encerramento dos museus, pela destruição dos monumentos históricos […]
- Tais são as vantagens de uma educação verdadeiramente científica.
[…]
- Seis anos mais tarde, foi produzido comercialmente. O medicamento perfeito.
[…]
- Eufórico, narcótico, agradavelmente alucinante.
[…]
- Podem obter uma fuga da realidade cada vez que disso sentirem necessidade e voltar a ela sem a menor dor de cabeça nem vestígios de mitologia.
Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (1932)
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Conhecer JOSÉ RÉGIO

A fantasia e o sonho são aves que em verdade se podem alimentar das nossas próprias miséria: tal desejo temos de nos não sentirmos miseráveis! Porém o desgosto demasiado premente sufoca-os; escorraça-os a contemplação ou preocupação demasiado imediata de um estado infeliz.
[…]
O desgosto, a raiva e a revolta que actualmente o corrompiam – é que lhe faziam sentir um áspero prazer em ser injusto.
[…]
Lelito não poderia esquivar-se hoje àquela obsessão da injustiça que praticara. A grossaria não estava no seu feitio; mas fora grosseiro (repetia consigo próprio que fora grosseiro, que fora grosseiro…) para com um desconhecido que o procurara, talvez, amigavelmente.
[…]
Em suma: um triste; um só; talvez, em certos aspectos um irmão. E fora esse que ele repelira do modo mais humilhante, mais arrogante, quando, vencendo uma timidez que não podia deixar de o caracterizar, o outro ensaiara aquela tentativa para aproximar as suas duas solidões, remediar a sua comum timidez…
[…]
Certa hesitação cobarde, irracional, que tantas vezes nos faz sacrificar ao comodismo de um momento a paz ou satisfação de vários dias, meses, anos, lhe insinuava que adiasse para outra oportunidade a reparação que decidira oferecer ao ofendido.
[…]
Um pungente arrependimento apertou, como uma garra, a garganta de Lelito. Lelito suspeitou que esse homem tinha uma ferida, e ele lha pisara como sem dar por isso.
José Régio, A Velha Casa I

[…] Lelito descobria com alvoroço – principalmente, com uma espécie de apaixonada gratidão, dirigida nem sabia a quem, a quê, - que outros tinham sofrido de inquietações, tormentos, perplexidades, agonias, enlevos ou desesperos idênticos aos seus; superiores aos seus. Assim, através do espaço e do tempo, se reconhecia como um elo vivo numa cadeia de humanidade angustiada, palpitante, roída pela fome de Absoluto. Capazes, muito capazes eram esses seus grandes irmãos mais velhos de dar fascinante expressão literária quer à sua angústia, quer ao seu fogo! Comparando com tais Obras os papéis em que, à maneira de diário, confissões ou memórias, e aliás com longas interrupções de sentido, ia registando ora as mais amplas ansiedades do seu espírito, (assim as julgava ele, naquela zona interior menos atingida pela convencional modéstia) ora os pequenos factos, puerilmente caricaturados em grande, da sua vida quotidiana, por certo não podia deixar de reconhecer Lelito, ai dele!, a sua desanimadora inferioridade no exprimir-se. Nem por isso deixava de lhes ser comum, a ele e a tais heróis, o fundo dos sentimentos, pensamentos, aspirações. A verdade é que não estava tão só como o julgara! Não era tão anormal como, às vezes, o temia! Outros, admirados por grandes, haviam destapado ao mundo abismos perante quais deixavam de parecer monstruosas as suas pequenas perversões de sensibilidade, ou complicações de sentimentos. Outros haviam descido muito mais fundo os sinistros degraus do Desespero, e subido mais alto, sempre mais alto, as escadas sem suporte do Ideal. Mas se, com os seus poucos anos e uma experiência limitada às paredes duma velha casa, (ou dum colégio do Porto) sentira já coisas tão semelhantes às expressas em romances e poemas célebres…; melhor: se já cá chegara a pensar, embora com as inevitáveis hesitações e deficiências, coisas que, no fundo, eram base sobre que erigiam grandes pensadores as suas esplêndidas arquitecturas de ideias e relações, - é porque pertencia àquela família dos heróis dos romances, dos poemas, dos sistemas…
José Régio, A Velha Casa II

[…] Não há problemas senão os de cada um.
- Há os problemas colectivos da fome e do frio; da doença e da velhice desamparada; da miséria moral; do atraso intelectual; da redução do homem ao animal e ao servil… […] posso dar-te razão noutro ponto: Não há senão os problemas individuais. Os problemas da fome, do frio, da velhice, da infância ou da doença desamparada, do atraso mental, da imoralidade provocada pela miséria, da escravidão ou sufocação do mais fraco sob o dinheiro e o poder… começam por ser problemas individuais; problemas de cada um. Não lhes chamo colectivos senão porque são comuns a muitos indivíduos! Talvez, também, porque podem atormentar a consciência moral doutros indivíduos, os melhores, que assim se apropriam deles. Os que mais concretamente os sofrem, porém, é que nem sempre têm essa consciência…
[…] E deveria aquele bem comum com que desde a adolescência sonhava – aquela vaga, distante Humanidade pela qual desde sempre lutara, e que tantas decepções lhe dava quando tratada de perto – fazê-lo desprezar a felicidade ou infelicidade dos seus mais próximos parentes? Entre tantas outras, uma particularidade tivera ocasião de observar pela vida fora, no seu convívio com muito diversos camaradas, e até de nacionalidades diversas: E era que muitas vezes os homens que mais se empenham – e em verdade lutam – pelo progresso social da humanidade, são incompreensivos e frios, até duros, no contacto directo e individual com os seus semelhantes. E que, pelo contrário, se revelam tolerantes e até generosos, até caridosos, nesse contacto pessoal, muitos dos que, perante o novo ídolo, ou abstracção, da Humanidade, (até perante uma colectividade real) se mostram cépticos, indiferentes, desdenhosos. Não se deixar escorregar nem a uma nem a outra destas limitações, - eis o que sonhava! Sabia, agora, que só nessa largueza do coração e do espírito se poderia verdadeiramente realizar a sua vida. E as decepções não deviam enfraquecê-lo. Os desânimos e tédios de momento (nem que dum momento arrastado longos meses…) não deviam fazê-lo perder a confiança. Tinha de sempre esperar! nem que humanamente desesperado; sempre crer! mesmo quando a sua crença humanamente lhe não aparecesse senão como aparência de crença, - um mero proceder como se cresse… Cada vez mais lhe dizia a experiência que os homens são fracos, mesquinhos, volúveis, loucos, desgraçados, viciosos…, e que talvez, dum certo ponto de vista, nem valha a pena lutar por eles! No fim de contas, não se acomodam com desesperadora facilidade a toda a espécie de vilania? Mas seria razão para não lutar, desde que, nesses pobres seres infelizes, tão ingratos que chegava a aborrecer como importunos, até a odiar e perseguir como inimigos, os seus melhores amigos, se não deixasse de reconhecer qualquer gérmen de ultrapassagem, qualquer luzinha, mesmo débil, que imprescindível era não deixar apagar-se…?

[…]
Os homens como eu, que não podem renunciar a um ideal… que acabam por compreender que não podem… (está claro que falo dum ideal moral) por isso mesmo não podem renunciar a uma vontade de aperfeiçoamento próprio. Sim, têm necessidade de se reverem no espelho do seu ideal… ou da sua consciência… e não ficarem muito descontentes consigo: tão descontentes que desanimem. Isto os pode levar a hipocrisias… confusões… Talvez eu ainda não tenha pensado nisso suficientemente. Mas umas coisas não invalidam as outras, porque tudo em nós é impuro. Não podem esses mesmos homens também alguma coisa fazer pelo bem dos outros? pelo aperfeiçoamento geral?...
- O tal bem dos outros é terem que comer; que vestir; onde morar; e não serem vexados impunemente.
José Régio, A Velha Casa III













