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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Conhecer ALDOUS HUXLEY

UM AVISO
Na próxima geração, acho que
os senhores do mundo descobrirão
que o condicionamento infantil
e as narcoipnoses são mais eficazes,
como instrumentos de governo, do que
os garrotes e os calabouços, e que a
avidez de poder pode ser saciada tão
cabalmente se, através da indução, se
conseguir que as pessoas amem a sua
escravidão como se a chicotada e a
pontapés lhes fosse imposta a
obediência.
[Aldous Huxley, 1949]

Aldous Huxley
Godalming (Reino Unido), 26 de Julho de 1894
Los Angeles, 22 de Novembro1963

****************

- E é aí – disse sentenciosamente o director […] – que está o segredo da felicidade e da virtude: gostar daquilo que se é obrigado a fazer. Tal é o fim de todo o condicionamento: fazer as pessoas apreciar o destino social a que não podem escapar.
[…]
O director pôs o interruptor na primitiva posição. A voz calou-se. Apenas o seu longínquo fantasma continuou a murmurar debaixo dos oitenta travesseiros.
- Ouvirão isto repetido ainda quarenta ou cinquenta vezes antes de acordar; depois novamente na quinta-feira; e igualmente no sábado. Cento e vinte vezes, três vezes por semana, durante trinta meses. […]
- Enfim, a hipnopedia, a maior força moralizadora e socializadora de todos os tempos.
[…]
- Até que o espírito da criança seja essas coisas sugeridas e que a soma dessas coisas sugeridas seja o espírito da criança. E não apenas o espírito da criança, mas igualmente o espírito do adulto, e para toda a vida. O espírito que julga, deseja e decide, constituído por essas coisas sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que nós sugerimos, nós! - Que o Estado sugere.
[…]
- Para governar, é necessário deliberar, e não perseguir. Governa-se com o cérebro, nunca com os punhos. Houve, por exemplo, o regime de consumo obrigatório…
[…]
- Cada homem, cada mulher e cada criança tinha obrigação de consumir uma determinada quantidade por ano. No interesse da indústria. O resultado…
“Mais vale destruir que conservar. Quanto mais se remenda, pior se fica. Quanto mais se remenda…”
[…]
- A objecção de consciência em grande escala. Qualquer coisa servia para não consumir. O regresso à Natureza.
[…]
- O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros.
[…]
- Oitocentos praticantes da vida simples foram abatidos à metralhadora em Golden Green.
[…]
- Depois houve o célebre massacre do Museu Britânico. Dois mil fanáticos da cultura mortos com gases de sulfito de dicloroetilo.
[…]
- Finalmente […], os administradores verificaram a ineficácia da violência. Os métodos mais lentos, mas infinitamente mais seguros, da ectogénese, do condicionamento neo-pavloviano e da hipnopedia…
[…]
- Utilizaram-se enfim as descobertas de Pfitzner e de Kawaguchi. Uma intensa propaganda contra a reprodução vivípara…
[…]
- Acompanhada por uma campanha contra o passado, pelo encerramento dos museus, pela destruição dos monumentos históricos […]
- Tais são as vantagens de uma educação verdadeiramente científica.
[…]
- Seis anos mais tarde, foi produzido comercialmente. O medicamento perfeito.
[…]
- Eufórico, narcótico, agradavelmente alucinante.
[…]
- Podem obter uma fuga da realidade cada vez que disso sentirem necessidade e voltar a ela sem a menor dor de cabeça nem vestígios de mitologia.

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (1932)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Conhecer DIAS DE MELO

[…]

Meu Pai tinha trabalhado na América debaixo da barba alheia, debaixo da barba brutal dos bossas, cada bossa o rosto que se via do patrão milionário em que ninguém punha a vista em cima e a quem todos serviam, os imigrantes a meio peso, linguagem do México, o mesmo é dizer a meio dólar por dia (trabalhador americano de nascimento, já nesse tempo, finais do século passado, princípio deste, nem por trinta dólares por mês o apanhavam), os emigrantes pediam trabalho, trabalhavam como escravos e não reclamavam na soldada, e eram tantos, nem meu Pai conseguia imaginar quantos, de todos os países do velho mundo, a trabalhar para cada patrão milionário, muitas vezes um patrão que começara por ser também imigrante e trabalhador, um trabalhador sem escrúpulos, e concluía meu pai ser preciso o trabalho de dezenas de trabalhadores para, de um trabalhador sem escrúpulos tornado patrão modesto, fazer um pequeno milionário, maior, cada vez maior, à medida que, de pequeno, se ir tornando grande até que acabavam por ser multidões de trabalhadores escravos a trabalhar para o pequeno cardume dos poderosos multimilionários donos do mundo, e infinita a multidão dos trabalhadores que os servem, arrastando-se na lama da miséria, para que eles se mantenham no fausto da mais escandalosa opulência. Com isto metido na cabeça se arrebanhou com os trabalhadores que entendiam que isto não estava certo e que se aventuravam a lutar para que deixasse de ser o que sempre fora. Eram muitos com ele na América, na Califórnia, milhões, muitos milhões no mundo inteiro.
Quem se mete nestes sarilhos nem sempre consegue trabalho com facilidade, e sem trabalho, mais ou menos assegurado, não se arrecada muito dinheiro. Daí que, no regresso à ilha, meu Pai não fosse o calafona do costume, forrado de dólares e presunção pesporrente. E aqui uma coisa: na verdade, ao que dizem, os calafonas de volta, se traziam mil dólares consigo já era muito bom – e, a ganharem meio dólar por dia, espanta como tanto lograram arranjar. Tanto… Pouquíssimo na terra da América, aqui, no meio da nossa escassez, até dava para deitarem figura por uns tempos. O que trouxe meu Pai, não sei. Deu-lhe para comprar uns bocadinhos de terra e, penso já o ter dito, reabrir a loja tristemente encerrada pelo pai e fundada pelo avô brasileiro por meados do século passado, talvez, hoje, a mais antiga do Pico, isto tenho a certeza de já ter dito.
Segue-se que, lá por, no regresso da América, ter comprado uns palmos de terra, coisa pouca, e se ter estabelecido com fazendas e calçado na loja que fora do pai e do avô, nunca por nunca se teve meu Pai na conta de mais que ninguém, nunca por nunca deixou de se ter na conta de igual a todos, fosse um pobre de pedir ou qualquer de mais aquela, assim, e não como comerciante, pequeno comerciante, mas comerciante, que uns furos acima dos demais na conta de burgueses da pequena burguesia rural se têm os comerciantes das aldeias, mesmo, ou mais que todos, os vindos da maior das misérias, alguns os conheci e conheço. Com isto, nem minha Mãe por ter nascido como nascera e ser filha de quem era, nem meu Pai por ter na América penado o que penara, vivido o que vivera, sido o que fora, jamais se consentiram considerar, muito menos que nós, os filhos, nos permitíssemos considerar como pessoas que não fossem da família os que nos ajudavam nos nossos trabalhos. Eram-no, pelo sangue, meu primo João Silveira, por afinidade o Tio Jorge, tanto como eles, sem laços de sangue nem de afinidades, além do José Chíchero, o Armando (um dos homens mais inteligentes que tenho conhecido, foi o primeiro a me abrir os olhos da sensibilidade e do pensamento e, de uma vez por todas, para a poderosíssima força da estupidez e do poderio do dinheiro que nos subjuga aqui e no mundo inteiro)…
- …
- Não estou vendo as coisas com olhos avinagrados, estou a vê-las como, por mais que digam ou deixem de dizer, elas tardam em deixar de ser. Adiante.
- …
- … o Armando, o Manuel Madeirinha, o Manelinho de S. Miguel, o ti Manuel d’Ávila Moita (do ti Manuel d’Ávila Moita, Avô da minha defunta companheira, também tenho muito que contar, fica para outra), todos eram, em nossa casa e em pé de igualdade, com ou sem laços de parentesco, pessoas de família.
Quando comecei a trabalhar na terra, andaria pelos oito, nove anos, o mais assistente de todos, e por longos anos o foi, era o José Chíchero. Vinha connosco dois dias certos por semana, disse-o, em sua companhia trabalhava, a ele me afeiçoava, e afeiçoado fiquei para sempre, sabia lidar comigo, tratava-me de igual para igual, nem que fosse eu pessoa crescida, da sua idade, era paciente, explicava-me o que lhe pedia que me ensinasse, fosse o que fosse, para ele não havia coisas feias em que se não podia falar a crianças, assim, a seu modo com seriedade, me explicou coisas do sexo, do sexo e do amor, dantes só tinha ouvido rapazes mais velhos, um pouco mais velhos, disto falarem de maneira parva e canalha, vocês sabem como é que, nisto, tudo continua na mesma. Contei-lhe o que sentia pela Rosa do Mirante, envergonhado, a gaguejar, sem saber bem dizer o que sentia, veio, com o tempo, a ser a minha primeira grande paixão, o José Chíchero ouvia-me sem se rir, encorajava-me a falar, disse-lhe tudo o que lhe tinha para dizer lá conforme pude, aconselhava-me como se me não estivesse aconselhando, com um sorriso bom e palavras mansas:


- Isso é amor. O amor começa por isso, pelo bichinho com comichão. Mas o amor não é só isso, é muito mais. É uma ferida, ao mesmo tempo uma flor dentro da gente. A raiz e o sangue da vida. Não há nada mais importante que o amor. Tanto que, sem o amor, não há vida e a vida que existe deixaria, sem amor, de existir. O homem nasceu para amar e para viver no amor do homem. Por isso a vida do homem sem a mulher, o amor da mulher, a seu lado, nem chega a ser vida, não tem sentido, nem vida da mulher o é, o tem, sem o amor do homem consigo. Vidas assim são vidas sem vida, vidas mortas como qualquer costa deserta de onde nunca se avista ao largo uma vela branca, o fundo branco de um navio no horizonte deserto do mar.

Nem sei como podia o José Chíchero falar desta maneira, mas falava quando falava de amor. As palavras, as frases, não seriam estas, p-á-pá-santa-justa, não podiam ser, era um homem simples, nem sabia ler, nem sequer assinar o seu nome, agora a ideia, essa, era, sem tirar nem pôr, eu, vocês bem vêem, com a idade que no tempo tinha, começara a trabalhar na terra com o José Chíchero aos oito, nove, iria nos doze, treze, nada entendia de tudo aquilo como deve ser aquilo entendido, embora aquilo me entrasse no coração (por muito estranho que pareça, há coisas que nos tocam, entram no coração, sem que a gente as entenda, ou julgue que as não entende sem que a gente saiba porquê, ou julgue que não sabe porquê, sei lá, talvez pela imensa força da imensa verdade que carregam consigo) e no coração me ficasse para hoje o entender em toda a sua extensão à custa de experiências várias, por mim sofridas, nem todas de boas recordações.

[…]

Dias de Melo, Reviver: Na Festa da Vida a Festa da Morte
(Calheta de Nesquim (Pico), 08.04.1925–Ponta Delgada (S. Miguel), 24.09.2008]

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Conhecer PHILIP ROTH


[…]
É claro que chorou no funeral e teve consciência de quanto era colossal aquilo que, de maneira tão inesperada, fora levado. Quando o pastor leu, juntamente com passagens bíblicas, um conjunto de excertos de Júlio César do amado volume de peças de Shakespeare do seu pai – um livro enorme, com uma encadernação de couro mole que, quando Coleman era pequeno, lhe lembrava sempre um cocker spaniel -, o filho sentiu como nunca a majestade do pai: a grandeza tanto da sua ascensão como da sua queda, a grandeza que, como caloiro universitário ausente havia um escasso mês do pequeno reduto da sua casa em East Orange, começara, ainda muito ao de leve, a ver como na realidade era.

Os cobardes morrem muitas vezes antes de morrerem;
O corajoso só uma vez o sabor da morte prova.
De todos os prodígios de que já ouvi falar,
O mais estranho me parece que temam os homens;
Posto que a morte, um fim inescapável,
Virá quando tiver de vir.

A palavra “corajoso”, com a intonação que o pregador lhe deu, despojou Coleman de todos os seus viris esforços para um autodomínio sóbrio e estóico e pôs a nu a sua saudade daquele homem que lhe era mais do que todos chegado e nunca mais voltaria a ver, o pai incomensurável que sofria em segredo e falava com tal facilidade e arrebatamento que o seu dom da palavra bastara para, inadvertidamente, incutir nele a vontade de ser admirável. Coleman chorou com a mais fundamental e transbordante das emoções, irremediavelmente reduzido a tudo aquilo que lhe era insuportável. Quando, adolescente, se queixava do pai aos amigos, caracterizava-o com muito mais desdém do que sentia ou tinha, sequer, a capacidade de sentir; aparentar um modo impessoal de julgar o próprio pai era mais um dos métodos que divisara para inventar e proclamar invulnerabilidade. Mas sentir que já não estava circunscrito nem definido pelo pai era como descobrir que todos os relógios para que olhava tinham parado e não existia maneira alguma de saber que horas eram. Quer lhe agradasse quer não, era como se, até ao dia em que chegara a Washington e entrara na Howard, tivesse sido o pai que fizera em seu lugar a sua história. Agora teria de ser ele a fazê-la, e essa perspectiva era aterradora. Mas depois deixou de ser. Passaram três dias terríveis e assustadores, passou uma semana terrível, duas semanas terríveis, e de repente, sem mais nem menos, o que era aterrador tornou-se estimulante.



“Como evitar aquilo/Cujo fim é determinado pelos poderosos deuses?” Versos também de Júlio César, que lhe tinham sido citados pelo pai, e, contudo, só com o pai na sepultura ele se dignara finalmente a escutar, mas que, ao escutá-los, de imediato engrandecera. Isto tinha sido determinado pelos poderosos deuses! A liberdade de Silky. O Eu puro. Toda a subtileza de ser Silky Silk.
Descobrira em Howard que não era apenas um preto para Washington D.C. – e, como se esse choque não tivesse sido suficientemente forte, descobriu que era também um negro. Um negro de Howard, para mais. Da noite para o dia, o puro Eu tornou-se parte de um nós com toda a solidez dominadora do nós, e Coleman não quis ter nada a ver nem com ele nem com outro nós opressivo que surgisse. Saímos finalmente de casa, a Ur de nós, e encontramos outro nós? Outro lugar que é exactamente como esse, o substituto desse? Enquanto cresceu em East Orange foi sem dúvida um negro, uma parte muito integrante da sua pequena comunidade de cerca de cinco mil almas, mas no boxe, na corrida, no estudo, em tudo aquilo em que se concentrara e fora bem-sucedido, nas suas andanças solitárias por todos os cantos de Orange e, com ou sem Doc Chizner, para o outro lado da fronteira de Newark, foi, sem pensar nisso, também tudo o mais. Foi Coleman, o maior dos grandes pioneiros do Eu.
Depois partiu para Washington e, no primeiro mês, foi um preto e nada mais e foi um negro e nada mais. Não, não. Viu o destino à sua espera e não o quis. Compreendeu-o instintivamente e recuou espontaneamente. Não podemos deixar o grande eles impor-nos a sua intolerância, do mesmo modo que não podemos deixar o pequeno eles tornar-se um nós e impor-nos a sua ética. Não à tirania do nós e dos nossos discursos e de tudo que o nós pretende fazer desabar sobre a nossa cabeça. Jamais, para ele, a tirania do nós desejosos de nos absorver, do nós moral coercivo, inclusivo, histórico e inelutável com o seu insidioso E pluribus unum. Nem o eles da Woolworth, nem o nós de Howard. Em vez dele, o Eu puro com toda a sua agilidade. Descoberta de si: era esse o directo à pança. Singularidade. A luta apaixonada pela singularidade. O animal singular. A relação deslizante com tudo. Não estática, mas deslizante. Conhecimento de si, mas oculto. Haverá alguma coisa mais poderosa?
“Cuidado com os idos de Março.” Treta. Cuidado com coisa nenhuma. Livre. Com ambos os sustentáculos perdidos – o irmão mais velho do outro lado do mar e o pai morto -, sente-se revigorado e livre para fazer o que quiser, livre para atingir o maior dos objectivos, sente nos próprios ossos a confiança necessária para ser o seu Eu individual. Livre numa escala inimaginável para o seu pai. Tão livre quanto o seu pai fora oprimido. Livre agora não só do pai mas também de tudo o que o pai tivera sempre de suportar. As imposições. As humilhações. As obstruções. A ferida, a dor, a atitude, a vergonha: todas as angústias secretas do fracasso e da derrota. Em vez disso, livre no grande palco. Livre para seguir em frente e ser grandioso. Livre para representar o drama sem limites e autocaracterizador dos pronomes nós, eles e eu.
A guerra continuava e, a não ser que terminasse de um momento para o outro, ele acabaria por ser recrutado. Se Walt estava em Itália a combater contra Hitler, por que não haveria ele de lutar também contra o sacana? Corria o mês de Outubro de 1944 e ainda lhe faltava um mês para completar 18 anos. Mas ser-lhe-ia fácil mentir a respeito da idade, não seria problema nenhum atrasar um mês a data do seu nascimento, passando-a de 12 de Novembro para 12 de Outubro. E, a contas com o desgosto da mãe – e com o abalo que lhe causara ao abandonar a universidade -, não lhe ocorreu imediatamente que, se quisesse, também poderia mentir a respeito da sua raça. Tirar partido da sua pele da maneira que lhe apetecesse, atribuir a si mesmo a cor que quisesse. Isso só lhe veio ao espírito quando estava sentado no edifício federal de Newark, com todos os impressos para se alistar na Marinha à frente e, antes de os preencher, começou a lê-los cuidadosamente, com a mesma atenção meticulosa com que estudara para os exames liceais, como se tudo quanto fizesse, de grande ou pouca monta e tomasse-lhe o tempo que tomasse, fosse a coisa mais importante do mundo. E nem mesmo então lhe ocorreu a ele. Quem primeiro se deu conta foi o seu coração, que começou a bater com força como o coração de alguém na iminência de cometer o seu primeiro grande crime.

Philip Roth, A Mancha Humana

terça-feira, 8 de julho de 2008

Conhecer MIGUEL SOUSA TAVARES

[…] Sabia que para poder estar ali, para ser parte consciente naquela guerra onde se defrontavam duas concepções irreconciliáveis de civilização e valores, era preciso dotar-se de uma carapaça de bestialidade humana que era o preço a pagar pelo triunfo de um mundo que, a seus olhos, era mais justo e mais humano. E sabia também que, do lado oposto, a crueldade era exactamente idêntica. […]

Há decisões que se tomam e que se lamentam a vida toda e há decisões que se amarga o resto da vida não ter tomado. E há ainda ocasiões em que uma decisão menor, quase banal, acaba por se transformar, por força do destino, numa decisão imensa, que não se buscava mas que vem ter connosco, mudando para sempre os dias que se imaginava ter pela frente. Às vezes, são até estes golpes do destino que se substituem à nossa vontade paralisada, forçando a ruptura que temíamos, quebrando a segurança morta em que habitávamos e abrindo as portas do desconhecido de que fugíamos.
[...]

Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Conhecer MANUEL POPPE 2


COM AS MÃOS ATADAS

**************************

- Marta!

Alguém chamava, lá dentro. Não respondeu, mergulhada na vista da janela que abria para o vale. Compôs o cabelo, que se lhe enredou nos dedos. Pousou as mãos no regaço e deixou-se ficar, recostada na cadeira de baloiço, inerte, esquecida, indiferente. Não queria pensar. A neblina, a soltar-se da terra, dos casais, das hortas, cobria quase tudo. Pouco distinguia, a não ser as luzes que se acendiam, aqui e ali. O ruído era o das crianças, que corriam no jardim, das amigas que as vigiavam, das criadas, na cozinha, muito longe. Nem ela sabia, nem ouvia. Só queria aquele momento roubado e o campo sem fim. A luz crepuscular, doce, rosa dentro da bruma, leve, imponderável, livre, enquanto casas, árvores, volumes escureciam, recuperavam a forma e, depois, se iam perdendo, com o chegar da noite.

- “O vestido…”

Qual vestido? E sorriu: o vestido de popelina da mesma cor, que o pai lhe oferecera, em criança? Há tantos anos! Em plena adolescência, quando corria por aqueles atalhos, subia às árvores e arranhava as pernas, nas roseiras bravas, se deitava no chão, a admirar as estrelas cadentes de Agosto, e ninguém a encontrava, à procura dela e ela a esconder-se? Sozinha, a cantar baixinho, “meu amor é marinheiro”, “da minha janela à tua…” E de repente tinha medo e punha-se a tremer. Dominava-se e começava a andar devagarinho, entre as sombras e as pedras, de volta à casa. “Uh!”, gritava, a assustar os que a buscavam, ao esbarrar com eles. E ria, aliviada. Voltava a casa murcha, impaciente consigo por ceder. Ela é que fora ter com eles.

- “Sempre…”

Então, as suas pernas eram duras e o corpo não lhe pesava.

- Olá…

A miúda surgira de repente e espreitava-a, a medo.

- Olá… - repetiu, mas logo desatou a fugir, com a outra que se encostara à ombreira da porta.

Doeram-lhe as gargalhadas, que não sabia se eram de troça ou brincadeira. Inclinou-se e tentou ver-se nos vidros da janela.

- “Cara de pau…”

Passou as mãos pelo rosto, a seguir as linhas das rugas, a palpar a pele seca.

- “O creme… Apanho muito sol…”

O sorriso amargo vincou-lhe os traços. E ironizou:

- “Nem as crianças me querem! Estou velha!... Velha aos sessenta anos?”

Filhos? Netos? Estavam lá dentro, falavam, gritavam, divertiam-se. Longe. O marido? Cansara-se dela e ela cansara-se dele. Podia vir, que não diria nada, mesmo que falasse. Respeitava-o? Respeitava as pessoas. Por aí não vinha mal ao mundo. Nenhum mal. Talvez fosse pior: não havia nada. Cansara-se de o seguir, talvez se tivesse cansado de os seguir a todos, fartara-se. E não se assustou com o pensamento: porquê? Que acontecera ao entusiasmo, a quanto dera? Aceitara-os de olhos fechados, entregara-se-lhes. Sacrificara-se. Ao princípio não se queixara. Parecia-lhe natural e era natural, porque as coisas aconteciam intensamente. Ardentemente. O seu corpo vibrara. Mas, pouco a pouco, por isto, por aquilo, esmorecera. E, agora, desistira? Ou não soubera querer, sempre o medo, a angústia, que disfarçava mas nunca vencera. Não se queixava, amara-os. Continuava a amá-los. Hoje, porém, as coisas tinham mudado: o medo transformara-se em angústia, que a oprimia. Tinha de a enxotar. A angústia dava cabo dela. Pouco a pouco, todos os dias, e sentia-o, fugiam-lhe as forças, sufocava. Reagia aos arranques, numa espécie de estertor. Não queria desprezar-se; não podia. E, no entanto, sabia, claramente, que nunca fora dona de si própria e queria sê-lo, ao menos uma vez. Um dia! Mas teimava em viver ali.

- “O tempo…”

Sim, o tempo, que roía, que degradava, que tudo atirava por terra. E não se mexeu. Escurecia. Não valia a pena acender a luz. Entretinha-se com as que brilhavam, intermitentes, lá fora. Levantara-se uma brisa muito leve, que refrescava. Envolveu-se no xaile de lã, que trazia aos ombros.

- “É o fim do verão…”

Caiu na modorra, acordava e adormecia, nunca adormecia. E, de repente, a paisagem andou vinte anos para trás. Já não era o vale, nem casais, nem hortas, que via. Reconheceu a montanha onde se perdera. Os cimos ainda cobertos de neve, as abas, cortadas a pique, o silêncio. Era outro Setembro e visitara, em grupo, o Norte de Espanha. Naquela manhã, durante o passeio, insensivelmente, fora deixando os companheiros para trás e viera ali parar, não sabia onde. Que importava? E repetiu-se o que a imobilizara: o susto, o vazio, a vertigem.

O coração, aos saltos, parecia que ia rebentar. E os olhos fixaram a águia, que girava devagarinho, muito longe. Esquecera tudo. As únicas referências eram as escarpas e a águia, presa do azul gelado do céu. Não fazia nenhum esforço para se lembrar, para compreender. O que fazia ali não lhe interessava. Tinha medo de saber. Ninguém devia saber. Era livre. Os outros não existiam. Não podiam travá-la ou ensinar-lhe o caminho. Ficou quieta, à espera. Sorriu à neve imaculada. Não queria pisá-la. Lembrava-se de haver visitado umas grutas, atravessadas por um riacho e com o tecto repleto de estalactites.

- “Se lhes tocar, morrem. Não crescem mais…” – explicara o guia.

E pensou que, se continuasse a andar, aconteceria a mesma coisa: aquele momento morreria. Não queria voltar atrás. Era ela. E abandonou-se à vertigem, ao arrepio que a atravessou, lhe desceu dentro, a fez estremecer, gozar a própria solidão. As fontes latejavam-lhe, sentiu os seios crescerem, rijos, o corpo tenso, os lábios entumecidos. Ia morrer? Não aguentava mais? E se morresse? Que importância tinha? Nunca o que viesse depois seria aquilo. Respirou fundo, encheu o peito, desafiou a neve, as montanhas, a águia impassível, lá no alto. Não tinha medo: nada poderia dobrá-la. Ah! Guardar a plenitude! Para sempre!

- “Marta!”

Chamavam por ela? Voltavam a casa? Acordou, sobressaltada, e ficou a escutar. Sim, outra vez, as vozes… Cerrou os punhos. Hirta, apertou os dentes. Não os queria! Mas eles falavam, riam, aproximavam-se, ouvia-lhes os passos no corredor. Rezou baixinho, a pedir que não entrassem.

Manuel Poppe, in “Um Inverno em Marraquexe”

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Conhecer JOSÉ CARDOSO PIRES

LAVAGANTE

(...) "Sei o que joguei, meu amor", lê-se, entre outras coisas, numa carta escrita há uma semana por Cecília. "Mas eu não podia suportar por mais tempo a ideia de estares fechado numa prisão, tu que tanto gostas de viver (...)



A história do amor do médico Daniel Lobo e de Cecília, numa época da nossa História em que nem o amor era livre. Os "Sapos" poderosos usavam a cadeia e a chantagem para servir os seus mais obscuros interesses. Uma história contada, magistralmente, pelo autor a partir da conversa de dois homens no alpendre duma casa junto ao mar.

O texto é inédito e foi publicado, com o apoio da Mulher e das Filhas do autor, no ano em que decorre o 10º aniversário da morte de José Cardoso Pires, que ocorreu a 26 de Outubro de 1998.

sábado, 17 de maio de 2008

Conhecer MÁRIO DE CARVALHO

Mário de Carvalho
A SALA MAGENTA
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Que queria Maria Alfreda de Gustavo? Talvez pouco mais do que um amante que lhe ia preenchendo algumas noites, com demonstrações compósitas de lucidez e de ingenuidade e derivava para o mundo do cinema, para o mistério das formas, para os labirintos da imaginação. Que queria Gustavo de Maria Alfreda? Que ela, enfim, parasse, que o escolhesse de vez, contra um passado preenchido por outras presenças, que supunha quase todas cativantes ou perturbadoras, e também contra um presente desassossegado de interrupções, instabilidade, devassas, sinais de alerta e de perigo. Gustavo tinha de reconhecer – teve de lhe dizer – que a amava, muito a contragosto, como alguém que se submete, num supremo despojamento, esperando em troca paz e gasalho. Maria Alfreda nunca retribuiu a declaração, apenas a recebeu, com sinais de pensativa benevolência que não anularam em Gustavo uma acabrunhada sensação de derrota, antes acentuaram o mau passo de ter dito o que não devia.

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Era um realizador de cinema de um pequeno país, com uma minúscula filmografia, pouco dinheiro, falta de adestramento, soluções de continuidade nas experiências e nas carreiras. Era um cinema “cozido à linha”,[…].



Gustavo Miguel Dias, cineasta ou realizador de cinema (como preferia), é vítima de um assalto, que o obriga a mudar-se para a casa da irmã, Marta, na aldeia de Grodemil, junto da Lagoa Moura, com a sua “perna engessada e um par de canadianas emprestadas”.
O retiro forçado proporciona-lhe a retrospectiva da sua vida profissional e afectiva.
É constantemente assaltado pela memória do seu relacionamento com Maria Alfreda, que o usou de forma cruel, sem nunca se entregar verdadeiramente, fazendo com que, ainda agora, se sinta desprezado, magoado e humilhado. Maria Alfreda traiu-o, deixou-o e, soube-o mais tarde por um amigo, morreu. Mas ele continua a sofrer e, também, a lembrar a sala magenta, em cujo chão faziam amor, conversavam, trocavam confidências, enquanto a brisa ondulava os cortinados e fazia tilintar um espanta-espíritos. A sala magenta que o atraía e lhe anulava o ânimo como o antro duma feiticeira, onde uma pequena pistola prateada adornava a papeleira de tampo cilíndrico, intrigando-o pelas interrogações que lhe suscitava.
A par deste amor que o seduz e não o satisfaz, tem algumas aventuras que lhe causam uma certa náusea, mas a que não consegue dizer não. Só fracassos!...
Como realizador, sente que não fez nada de fundamental, de novo. Agora, todos lhe viram as costas. Esquecem-se dele, inventam desculpas enquanto promovem jovens inexperientes. Sente-se incapaz de novos projectos e compreende que, também aqui, fracassou. É, portanto, um fracassado sem futuro.
E Marta? Uma mulher sensível, delicada (ao ponto de, para não magoar o irmão, lhe dar cinquenta euros que diz, mentindo, ter encontrado num bolso das calças dele), capaz de grande respeito pelos outros, sofredora em silêncio e em privado. Foi abandonada pelo marido e o filho, Cláudio, engana-a, fingindo continuar os estudos mas enveredando por uma vida no submundo nocturno de Lisboa.
Gustavo, que a si próprio se considera um cínico egoísta viciado em exibições de insensibilidade, começa a ser sensível à presença e aos problemas da irmã, ao mesmo tempo que repousa, tranquilo, no cuidado e protecção que ela lhe dá: a ingenuidade protectora de Marta, àquela hora da noite, fazia renascer uma sensação de conchego que ia impregnando o todo em volta, devagar, como uma névoa benigna tombando.
Mas o sentimento de fracasso é tão forte que, ao invés de aceitar uma vida calma ao lado da irmã como eu previa e desejava, se precipita na Lagoa Moura, numa noite em que ela se ausenta, pensando que a única maneira de escapar ao terror era entrar nele. Arrepende-se e conseguem salvá-lo, voltando para os braços da irmã que trata dele. Aqui a acção suspende-se. Talvez para que um dia, mais tarde, Mário de Carvalho possa continuar a história.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Conhecer FERNANDA BOTELHO

FESTA EM CASA DE FLORES
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O convite para um jantar em casa de Flores e as misteriosas cartas anónimas em papel verde pálido, escritas em verde escuro, são o ponto de partida que Fernanda Botelho utiliza para nos contar a história da família de Pedro Pedralvas, o Mamute Nosso Coevo, embaixador e escritor.

Do seu primeiro casamento com Salomé, tem uma filha, Rita, a quem o marido chama favinho de mel ou a pérola da minha mulher.

Rita é uma esposa permissiva, doce, frágil, angélica. No entanto, sabe o que quer e como consegui-lo, isto é, sabe “preparar o terreno”, conduzir as coisas, de modo a obter o que deseja.

O seu marido, Carlos Romeira, o Carloto, a quem o casamento resolveu o problema de carências financeiras, trabalho na empresa da família e é artista nas horas vagas. Crê-se, potencialmente, reservado a altos voos: um Manet dominical, acarinhado e subservido pelos deuses do materialismo e do capitalismo, embora, em contrapartida, como represália, por vezes, o rejeitassem as musas.

Carlota, a Lota, é filha do segundo casamento do Mamute com Maria das Dores. Moderna, apressada e desinibida é a “menina querida” do pai.

Há ainda a governanta francesa, Monique, uma espécie de deusa tutelar da casa e da família.

Importante, também, o papel da amiga Rosa Couto e os seus “desconchavos”.

Uma escrita rica, inteligente, divertida, posta ao serviço da crítica social e da caracterização psicológica das personagens, com as suas limitações, dúvidas, incertezas, afectos ou a falta deles.

Fernanda Botelho, o narrador todo-poderoso que afirma:

[…] Porque eu, narrador, personagem, personagem privilegiado, demiurgo, estou aqui, estou lá, estou em todo o lado, ubíquo, universal, não há fronteiras que me bloqueiem as bravatas nem tempo que me desvaneça registos de memória. Sou infinito e eterno. Esvoaço. Esvoaço no conspícuo enredado de cada pessoa em si e das pessoas entre si, insinuo-me nas almas, na profundidade das alcovas, no calor das cozinhas, no silêncio dos gabinetes, para lá das paredes e aquém dos muros, na obscuridade dos salões fechados e nas ruas iluminadas pelo sol vesperal, no dia radioso e na noite sinistra, prosseguindo e perseguindo os meus encantadores bonecos nesta aventura vulgar, que é a de vivermos lado a lado, sem afinal nos conhecermos de uma forma razoável e resolúvel. […] (1)
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(1) O destaque é meu.